quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Sempre tive mania dos barroquismos, uns mais baratos que outros, mas constantemente prenunciados. Árvores e flores, música com filmes, estes sem música, mas tudo trabalhado; o pormenor, essa busca inteligível. Tudo pode parecer cru; nu; “ in your face”, tudo aparente, apenas isso. Se estranha, entranha.



Bill Callahan - Jim Cain at Used Kids Records









Johnny Cash Hurt


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Laura

Ela vivia no momento em que ele se afastou. Foi num Domingo de manhã “ não fujas de mim”, não respondeu, de mala às costas partiu com um cigarro na boca. Abandonou-a sem nada dizer; um gesto; aceno; nada. “ Não me deixes”, lágrimas a correrem-lhe pela camisa de dormir, olhos inchados, pretos, duas enormes bochechas orbitais repletas de dor; foi o fim para Laura. Entregou-se à bebida, aos amores fáceis, lentamente se abandonou. Eram as camas improvisadas que lhe secavam os salgados olhos mortiços, momentos em que se sentia amada “cada vez és melhor”, e ela deliciada, vinho nos lábios gretados “ és tão bom para mim”.
A Laura envelheceu sozinha, agradecendo à aldeia pelo amor que lhe devotava. Morreu como a “Laurinha boa foda”, sem visitas, lágrimas e velório. O único presente no enterro, foi um homem de cigarro na boca, mala às costas, e um adeus nas mãos “eu amava-te demasiadamente para ficar”. As cordas desceram, Laura foi enterrada outra vez, agora para sempre

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Variações sobre a cidade

Os meninos jogavam à bola no adro da Igreja, um campo de futebol religioso, com uma baliza, só uma. Era enorme, de madeira trabalhada com postes e barra góticos – eles não sabiam nada destas coisas. A cada golo, um barulho magnânimo, transcendente, “daqui para fora, já” e a rapaziada aos pulos, erguendo os braços ao ar, a Deus “ não os quero aqui”, não era Ele que os escorraçava, mas sim o seu representante, o bondoso senhor prior.
Durante meses a fio o adro era o lar da pequenada “ gira daqui para fora”, até que um dia, perante tais ameaças divinas, abandonaram o campo de futebol religioso com a sua bola de cate chumbo. Eles e as camisolas de malha − tricotadas pelas mães e avós −, desceram as escadas do promontório sagrado da cidade, sem olhar para trás, sem cruzarem olhares entre eles, ressentidos, envergonhados. Afastaram-se da Igreja, até hoje.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Novembro

Em Novembro, as noites vão caindo mais cedo em cima de nós. O céu começa a partir-se e a lavar as ruas; os transeuntes que teimam em não usar sombrinha; assim como os cães dos vizinhos às ombreiras das portas.
Em Novembro iniciamos a leitura das coisas tristes, ficamos deprimidamente felizes, nostálgicos, com castanhas a arder nas mãos. Mãos paulatinamente gretadas, o sangue a escorrer até às unhas, que chupa-mos sem medo, mas com dó. Nada nos mantêm aquecidos em Novembro, nem sequer aquela manhã com sol, com café a realizar desenhos no ar, afluindo à dança produzida pelo cigarro em espirais de beleza tóxica.
Em Novembro, todos somos mais e mais sós, solitários ao frio − como no conto de Maupassant −, tendo como certeza a impossibilidade de companhia efectiva, concreta, na imensidão de gotas que nos vão encharcando o claustro.
Novembro, nome triste.
Novembro cor de maçã podre.
Novembro nome de estação de caminho de ferro, onde está alguém, com folhas nos dedos compridos, enquanto espera o último comboio para aquele lugar, outro lugar. É sempre outra a estação que espera alguém. A outra estação que certamente estará vazia, sem ninguém.
Em Novembro nasce Camus, numa quinta da antiga aldeola de Saint-Paul, perto de Mondovi, a sul de Annaba. Nasce após uma viagem de carroça, o que não é de todo um bom prenúncio. Nove meses bastam na sua vida para eclodir a Primeira Guerra Mundial. E depois está lá tudo no “Primeiro Homem”.
Novembro é mês de revisitar os mestres, tristes mestres.
Está quase a chegar o Entrudo, pode ser que tudo isto passe. Pode ser.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Variações sobre a cidade

Naquele tempo a cidade estava cheia de sociedades recreativas, com mulheres lá dentro, sentadas à espera de uma dança. Os maridos − que no bar da sociedade eram solteiros – bebiam, embebedavam-se uns com outros, todos eles sem mulheres ou filhos. Os homens brincavam aos meninos grandes, e os brinquedos eram minis geladas, chupetas nos beiços, com grandes bigodes por cima. Homens que levavam as suas “marias a dar uma voltinha”, “marias” em quietude nas suas cadeiras. Todas elas maquiadas, com roupas domingueiras, perscrutando o agrupamento musical, que tocava para uma pista de dança vazia. Mulheres que eram apenas “marias” de seus homens; mulheres com os seus filhos numa longa espera.
Os meninos pequenos brincavam uns com os outros, oferecendo às suas mães um ofício, que era o de olhar por eles. Meninos e mães eram a perfeita e única companhia no baile. Mães que nunca retiraram os seus filhos de dentro de si, vivendo um com o outro, pelo outro, dentro do outro. E os pequenos caiam um a um em cima do colo das mães, que lhes passavam as mãos pelo cabelo, pelo tronco, afagando-os como crias que eram.
A cidade de mães e filhos esquecidos, com homens solteiros a jogar à lerpa na mesa da vida dos outros, que afinal era dos seus.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Vamos lá tocar na rua.

Stephen Malkmus - Hopscotch Willie

domingo, 21 de dezembro de 2008

Sou uma pessoa muito doente...

Pode parecer ironia, mas eu nunca tive muito de Montaigne, nem sequer um castelo, quanto mais ensaios brincalhões.