domingo, 14 de fevereiro de 2010

Acabou

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A saga... sugestão

Nick Hornby e o último livro da  sua coluna na Believer. Um autor precisa de pão; dinheiro portanto. E só por acaso, vale a pena ler, mesmo muito a pena.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Um começo

Mais uma tarde de Outono, daquelas em que o vento bate na janela socando-a com todas as forças de uma tempestade de Novembro, os carros na chuva lá fora, chuva e carros de dimensões magnificas. E eu por dentro com escritório como jardim cinzento, encharcado de água e cheiros a terras de um qualquer parque Inglês. Eu sentado à secretária, uma garrafa de água na mão, a olhar para os livros – por eles −, para janela, para o que se conseguia ver além dela, tudo sem tremer, sem me mexer da cadeira giratória. Os livros, por mais que tentasse não os ouvir, desafiavam-me a produzir mais um elemento para a biblioteca, e quem sabe para a dos outros. Em surdina murmuravam: “Só mais um livro João, é hoje que podes recomeçar a reprodução em papel”, e eu nada, a olhar para os gatos a dormir com as caudas arrumadas. Estava habitado de um pânico crescente, uma dor profundamente incomensurável como sempre que me encontrava frente a frente com a folha em branco. Acreditava e ainda acredito que esta situação é de uma de injustiça atroz, uma violência que corrói as vísceras do escrevinhador, uma batalha sangrenta onde caem no campo de batalha soldados desconhecidos, párias de vidas, homens e mulheres incógnitos com sangue nas mãos. Estava ou era − é sempre a mesma coisa − perdido comigo, um dos “Exploradores do Abismo”, de Vila-Matas, um escritor frustrado, vencido pelo medo e salvo às vezes pela parafernália de medicamentos que engolia sem medo para dentro do meu, desde sempre, pequeno estômago.
“As tardes são enormes coisas sem nada lá dentro”. Afaguei o cabelo com uma mão que ansiava por um cigarro há dez minutos. Levantei-me e comecei a procurar, em todos os bolsos do meu casaco já velho, o tabaco; encontrei-o e iniciei o ritual costumeiro da demanda do lume. O isqueiro em cima da mesa da cozinha, um exemplar que roçava o foleiro, acendi o vício e mais uma vez iniciei o sonho.
Olhei o tempo com um medo terrível de me esquecer de algum pormenor da minha vida de menino grande. A chuva fazia o seu trabalho, o vento ajudava, as janelas tremiam, “ João vem jantar”, e eu agarrado a elas com medo que as coitadas se transformassem em vidros. “ João anda comer” e eu sem fome, agarrado ao cigarro e à água com gás, a tentar mais uma vez equilibrar a ideia, a janela, e a água. O cigarro parado no cinzeiro, a canibalizar-se de dentro para fora “ já vou, só um minuto”, gritava eu a tentar esquecer-me da comida.
O vento acalmou, um silêncio nasceu, o vento, que é desde menino pequeno um grande amigo, adormeceu ao jantar.
Fumava e olhava para os livros; recordei sem querer as idas e vindas da escola pelo passeio do meu longínquo País do Sul. Todos os dias o mesmo passeio habitado de Sueste, o vento que o minava por dentro, que me ajudava a carregar e agarrar com muitos e saudáveis dentes o pirolito que sabia a mel: − o meu prémio pessoal por me ter “portado bem na escola”.
Recordei-me de alguns amigos da escola, de muitos não amigos, de nunca jogar no campo de futebol, só entre as oliveiras que faziam de baliza. O pacote de leite como bola, no intervalo de meia hora, às dez da manhã.
Nunca fui um grande jogador de futebol, nem um grande desportista, e assim eram as oliveiras goleadas pelos meus pequenos chutos.
A Teresa a gritar, os gatos acordam e esticam as pernas “ Estou a ir”, agarro-me à mesa e levanto-me com vontade de escrever. Fui para a sala, não trocamos palavras, sentei-me à sua frente, começamos a comer os escalopes. “Queres batatas fritas?”, e eu com os olhos de cão doente, disse que não, ou dei-o a entender, para desgosto e irritação da Teresa. “Não andas a comer nada, estás cada vez mais magro…”, não respondi, olhei para a carne com vontade de fugir. “ Ando sem fome, não sei o que é que se passa. Sei que não ando a ser uma grande companhia, e… Desculpa lá”, a mãos dela atravessaram a mesa, acariciaram-me a face ossuda, repetidamente sussurrou que tudo iria passar. Vieram os cafés, olhámos um para o outro sem pressa. Descansámos um no outro, pelo outro, o olhar. Beijámo-nos com bocas Sical, demoradamente, sem correrias. Fomos deitar.







terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Livros que gostaram de mim em 2009




É politicamente correcto, ou ordinariamente usual; costumeiro; pouco interessante, mas como em Roma ser romano, lá vou eu nos meus favoritos do transacto 2009:

Samuel beckett, The Letters of Samuel Beckett 1929-1940
Edited: Martha Dow Fehsenfeld; Lois More Overbeck
Cambridge

Tony Judt, O Século XX Esquecido - Lugares e Memórias
Edições 70
( trad. Marcelo Felix)

Juan Carlos Onetti, Os Adeuses
Relógio D´ Água
( trad. Hélia Correia)

W. G. Sebald, O Caminhante Solitário
Teorema
( trad. Telma Costa)

Robert Walser, Os Irmãos Tanner
Relógio D´ Água
( trad. Isabel Castro Silva)

Thomas Mann, A Montanha Mágica
D. Quixote
( trad. Gilda Lopes Encarnação)

Esther Leslie, Walter Benjamin
Fio da Palavra
( trad. Rui Mesquita)

Jack Kerouac, Tristessa
Relógio D´ Água
( trad. Paulo Faria)

Herberto Helder, Ofício Cantante
Assírio & Alvim

João de Melo, A Divina Miséria
D. Quixote

Juan José Millás, O Mundo
Planeta
(Luísa Diogo e Carlos Torres)

Thomas Bernhard, Os Meus Prémios
Quetzal
( trad. José A. Palma Caetano)

Robert Musil, O Homem sem Qualidades III
D. Quixote
( trad. João Barrento )

Lars Saabye Christensen, O Modelo
Cavalo de Ferro
( trad. Mário Semião)

Julio Cortázar, A Volta ao Dia em 80 Mundos
Cavalo de Ferro
( trad. Alberto Simões)

John Fante, Pergunta ao Pó
Ahab
( trad. Rui Pires Cabral )

Dag Solstag, Pudor e Dignidade
Ahab
( trad. Liliete Martins)

Arto Paasilinna, A Lebre de Vatanen
Relógio D´ Água






segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O Blogue não lido

Como prémio do blogue menos lido, dedico eu autor, algumas musiquitas, a mim.



































quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Bom Ano

Estás a preto a branco. Acordas-te assim, olhas ao redor com um copo de leite na mão, o copo e o leite estão policromáticos; naturais; regularmente normais; sem dúvidas confrangedoras. Sais da cozinha com açúcar nas palmas das mãos, lambes o doce que as passeia, pensas nela, no comboio a fugir de ti.
Tens um texto a escrever que ninguém irá ler; entras na casa de banho “ Assim não podemos continuar”, disse ela aos berros, molhas a cara, e ficas com a escova de dentes a baloiçar nas mãos. “ Eu percebo tudo, eu percebo sempre tudo! Merda João, estou farta. Farta, sabes o que é isso?”, terminas a lavagem corporal, vais ao escritório, acendes um cigarro na solidão, e recordas o tal conto de Maupassant, o tal.
O computador foi ligado, está a cores também, só tu és monocromático, só tu.
Sentas-te, refastelas-te na cadeira giratória, e na continuação do descoroçoamento, escreves ou recopias-te, no rincão da tua vida.
“ A dona Ricardina vivia no segundo direito, eu no terceiro direito, por cima do piano do seu filho Baltazar. O Baltazar não era rei no médio oriente, mas fazia um barulho ensurdecedor. “ Vou ser pianista”, dizia ele do alto da sua enorme, mas fina figura. Eu dizia sempre que sim ou calava-me “ Filho, o que fica por dizer, é sempre muito melhor do que aquilo que se diz”, e assim passaram os anos, com modificações dignas de nota: Eu que já tinha aulas de piano, abandonei-o, porque como o Bernhard, percebi que seria competente o meu futuro, seria bom, mas não genial. O Baltazar que era uma desgraça, viria ao longo do percurso a tornar-se um pianista junkie, suicidando-se, espalhando as suas vísceras ao longo do caminho-de-ferro.”
Paras, silencias a escrita, puxas de outro cigarro com a tua mão a preto e branco, e decides peremptoriamente ir ao mictório.
Entretanto eu que assisto a isto por cima, mesmo no alto da narrativa: sem deixar no entanto, de calcorrear o seu interior, agradeço. Agradeço a todos e todas que me têm lido, de forma muito sincera. Desejo um bom ano, melhor que este, que seja policromático. Só isso, tudo isso, a cores.
Por fim, não queria deixar de encorajar os que têm pachorra para isto, de enviarem os seus, vossos, comentários, please.

Tudo isto é ficção, nada mais; apesar de haver sempre todo o resto - que é muito, mas a cores.

Bom ano, e festas felizes.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Dandy a dançar.


Chegou o instante. É agora, o theama que não posso deixar de ver – sempre me deslumbrei com pleonasmos −, “ver não que é feio, olhar, isso sim”, captar na minha mais interna e visceral máquina fotográfica leica, que guardo com todas as minhas recordações no sótão occipital, em frente, de frente para o restante e ordinário.
Estou parado, contido na noite a tentar seguir os pressupostos de Isócrates, a habilidade ou “capacidade do discurso”. É agora, chegou a “Hora” de mais umas folhas coloridas, sarapintadas a preto – nunca consegui escrever de outra cor – “não se escreve a preto, quantas vezes terei de lhe repetir? É a azul como todos os seus colegas”, e eu nada. Eu nada.
Eu nada, sempre em nada, absoluto no absorto, quieto no preto, sossegado no escuro da cor, “sou um a preto e branco”, ela grita, eu ajeito a gravata e guardo-me no silêncio, profundo e duro, como aquela nuvem, a que teima em passar todos os dias na minha vida. É o momento de abrir a Obra, mas chove tanto lá fora, e cá dentro... frio.
Um dia pela manhã chegaste de fininho, e disseste-me que tinha de abrir o sótão, de o pôr ao sol, receber alguma luz, eu sendo polite “ amanhã sem falta, minha cara”, mas nada, e eu nada. Sentei-me novamente, li a Divina Comédia, no exílio como Dante, confrontado como o grande poeta com as consequências da viagem, do previsível residente, e com muito medo do presente. Fechei a porta do sótão, fui ligar a aparelhagem para ver se me animava, mimava ao som dos Bauhaus, o que mais uma vez, previsivelmente não me animou. Fui-me deitar, nem retirei a gravata, dandy até ao deitar.
No outro dia tentei-me levantar, mas durante a noite tinha andado em passeios rotativos e constantes pela Roma antiga, nas zonas do Foro e Velabro, onde fui atacado pela deusa Febre, e nem a subida ao altar do Palatino me salvou. Fiquei a olhar para o edredão o dia todo, com a escrita pendente, a Obra a marinar em “banhomaria”, no frigorifico ao lado dos iogurtes, em frente, de frente para porta fechada. Sai da cama à noite, com o enredo da escrita na febre “ amanhã sem falta, minha cara”.
Dormi mal nessa noite, tinha sede de medo de estar parado, mas estava bem, apenas desperto, com o cigarro a iluminar a minha quietude vivencial, uma subespécie de espécie de gostar da vida adiada.
Hoje é o dia, chegou a Hora, “Amanhã sem falta, minha cara”. Olhas-me de lado, visitas-me o colarinho, puxas-me de encontro ao colo. Chegou o instante, é a Hora, sussurras-me a sorrir “Vamos dançar?”, “Agora sem falta, minha cara”, e dança-mos a cores, muitas e macias, sem preto, pela noite fora. È a Obra.