quarta-feira, 26 de maio de 2010

O Anjo da Guarda

Às vezes estou de frente, parecendo de lado; estando no entanto sentado paralelamente, ao som. Outras são as vezes – tantas − em que estou ou sou, fumo, pó. Quando assim é, tatuo-me de sombra e deixo-me estar.
“ Levanta-te e anda “, dizias-me tu antigamente ao ouvido, em sopros, e eu chorava “ Vá lá, vai para o pátio”. Eu na biblioteca, a namorar a contínua de longe “ Estão todos lá em baixo “, com medo do recreio, ou das pessoas que o habitavam, vem tudo a dar no mesmo. Tudo. O Espírito começava a gritar, ordenava, e eu a querer uma metamorfose, ou fuga e “Cala-te”.
Às vezes estou de lado, e assim vou continuar. Tu obedeces-te, Tu que eras do Pátio Celeste.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Henry Miller no seu melhor

Afinal " New York " é uma grande merda.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A estória continua

O telefone acordou-me às sete da manhã, assustei-me. Fui em direcção ao telemóvel a correr, atendi com receio da voz do outro lado. “ Bom dia” disse alguém, era um homem “ bons dias”, respondi, “estou a falar com o senhor João?”, a voz parecia mansa, amigável. Transportei o telefone comigo para a casa de banho, acendi um cigarro, “ sim sou o próprio. Em que lhe posso ser útil?”, fitei o espelho, esperei a hipotética transfiguração da minha cara, liguei a torneira. “ Olhe, daqui fala do hospital do Sul…”, comecei a tremer, o cigarro caiu no lavatório, agarrei-me à sanita “ as notícias não são as melhores, o seu pai acabou de falecer, os meus pêsames”. O telefone caiu, a casa de banho desaparece momentaneamente. Vem o pânico. Agarrei-me ao tronco ossudo, toco nas costelas, tento me reconfortar, nada acontece.
Acordo mais tarde, a Teresa esbofeteia-me, baptiza-me novamente, bidé como pia baptismal “ João acorda. Vá lá, não me faças isto, ACORDA”, eu a tentar levantar-me, agarrado às suas costas como bengala. Choro compulsivamente “ e agora? E agora Teresa, que será de mim?”. Levantámo-nos os dois, e ela a retirar os cabelos dos olhos -os meus-, olha-me com a sua firmeza habitual, repete-me incessantemente um “ Calma”. Perde-me por instantes nos meus soluços “conta-me tudo, com calma.”, sorri, perscruta-me os braços, acende-me um cigarro enquanto ajeita o cabelo, e em surdina “toma amor”. Agarro-a como se fosse a minha casa “telefona para o meu trabalho… telefona para o teu, não podemos ir”, não a estava a engrolar, ela sabia-o.
A Teresa tratou de tudo, como era apanágio nas nossas vidas. Tentou falar com a minha mãe, foi difícil e doloroso para a Teresa, jogo táctil realizado telefonicamente, subespécie de diálogo, lágrimas que eu não queria ouvir. Lavei a cara, pensei no meu pai a andar de bicicleta, deslindava-o entre os autocolantes da janela do meu quarto, esperava sem ele saber “faz bem chorar João, chora à vontade”. Gostava de o olhar, nunca lho disse, eram garfos que nos atravessavam as gargantas no momento dos supostos carinhos verbais “ calma amor, abraça-te a mim “, lavava a cara, ele sempre de bicicleta, vinha dos lados da Câmara “gostava tanto dele Teresa”.
Fui-me deitar com os seus olhos fugidios “dorme um bocadinho, vai-te fazer bem”.
Um ataque cardíaco, foi o que o matou, estava no escritório. “Estava sozinho?”, perguntei já mais calmo − o xanax xr resultava muito bem.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Babel

Tenho uma comissura entre as folhas de devoluções, “Auster para aqui, Onetti ali, e o Sebald, Hugo, Rennie Airth, Hesse, Moravia, Shepard, Mutis, Chris Petit, Ilse Pollack, Kaminer, e foda-se…”. Desramo os dias como num antelóquio ministerial. Dias com murídeos nos olhos, a traquinar entre as pestanas, cerrá-las às sete pancadas rítmicas.
As devoluções são Jim Black em catadupa, porradas no crash do ceroferário da Livraria.
“Se eu tirasse o doutoramento…”
“ Mais uma devolução. Podes separar?”, e nascem quadros nas coisas que agarram a Bertrand, Sodilivros, Centro Atlântico. Castelos nas minhas mãos caladas, cada vez mais caladas, são silêncio ou o desejo de o ser, “ Se eu continuasse a tocar…”.
Sou um hipomóvel sem cavalo.
Abre mais uma Livraria, e eu nada. Dizem que é assim, assado e tal, nada. Cartuxo até à medula. Se gosto de novidades? Virtualmente em segunda mão... gosto assim-assim.

Chá em Praga


Planificação da noite

Estás de preto outra vez, e fica-te bem deixa-me dizer. És tão bela nessa posse romântica, estrela noir de uma qualquer película fumarenta. Hoje não existirá lugar para a mentira. Estaremos os dois de trenchcoat,  a fumar para cima um do outro, e "ligas a música?", talvez. Descansaremos no sofá vermelho, virá o passado, presente; e mataremos as luzes, enchendo na penumbra o cinzeiro de segredos.
“ Não quero que nada disto acabe”, e eu só mãos, a tentar a tua cara ”viste o filme que anunciaram?”, calamo-nos. Adormecemos como dois gangsters, a planear a próxima noite.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Demónio a ler










Para quem se interessa pela estória da tirania, fique a saber: o DEMÓNIO lia -afinal não era a fingir.